quarta-feira, 25 de maio de 2011

Relato: Memórias da falência da educação pública do RJ: do aluno ao professor – Parte 1

Antes de começar a redigir a minha “redação” faz mister esclarecer um ponto: Este texto não está baseado em uma pesquisa em escritos acadêmicos, livros, reportagens ou algo parecido. Todo o que escrevo aqui é de memória, são frutos de minha lembrança como aluno e, agora, como professor da Rede Estadual do Rio de Janeiro. Então, por favor, se tiver algum erro temporal, se eu esqueci de algo, me perdoem, mas vamos lá :

Comecei a escrever esse texto após presenciar a fala do apresentador Faustão, durante a apresentação da professora Amanda Gurgel “no meu tempo o chique era estudar na Escola Pública”, onde ele enalteceu que em seu tempo de estudante, a escola pública era de qualidade.

Não podemos esquecer que a história do Rio de Janeiro teve um fato importante nos anos 1970: A fusão com o Estado da Guanabara, vulgo Cidade do Rio de Janeiro que passa a ser a capital do recém-criado estado. Poucas informações temos sobre como era a qualidade de ensino na antiga Rede Estadual do RJ, mas a da Cidade-Estado, Capital Federal, Guanabara/Rio de Janeiro era considerada de alta qualidade.

Após a fusão as redes foram fundidas e anos mais tarde, começam as minhas memórias, justamente com a primeira eleição direta para governador do Estado. Nessa época, eu ainda era estudante da rede particular, bolsista integral do Colégio da Mabe, situado no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Lembro que foi Eleito o Governador Leonel Brizola, e foi dado início ao, que ouso em chamar, de único projeto de Educação que existiu no Governo do Estado do Rio de Janeiro, dos anos 1980 até hoje. Foram criados os Centros Integrados de Educação Pública e eles foram espalhados pelo Estado.

Lembro que nessa época, o Rock Brasil começa a ganhar projeção: das letras anti-governos de Brasília, os Punks de São Paulo e do Rio Grande do Sul, o Hardcore Metal Intelectualizado do Dorsal Atlântica do Rio de Janeiro. Essas bandas davam o tom da democratização de nosso país. As panelas eram batidas, passeatas em prol das Diretas Já coloriam as bancas de jornais. Havia esperança e alegria com o futuro de nosso país. O fantasma da ditadura começava a ir embora, mas existiam outros, como a inflação galopante, mas vou concentrar minhas memórias na educação.

Com a democratização de nosso país, a Constituinte de 1988, os serviços governamentais, como saúde e educação foram universalizados, ou seja, deviam estar ao alcance de todos. Paralelamente, e mesmo antes da Constituinte, Darcy Ribeiro, Secretário de Educação do Rio de Janeiro, lança o projeto dos CIEPS. O projeto pode não ser perfeito, afinal tudo deve ser aperfeiçoado, mas tinha um viés muito importante: Levar a Escola para todas os lugares do Estado do Rio de Janeiro. Precisávamos, e ainda precisamos, de levar a escola onde possuem cidadão. As crianças e adolescentes não devem viajar de ônibus para chegar ao seu local de ensino.

Com erros e acertos, foi o único projeto educacional de fato que tivemos ao longo mais de 20anos, mas infelizmente durou pouco. O governador seguinte, Moreira Franco, desmontou toda a estrutura. Os investimentos educacionais foram minguados e falo isso como aluno:

Na época do Governador Leonel Brizola, troquei a Educação Particular pela Pública (a saber Colégio Anne Frank) e enfrentei muitas dificuldades, o ensino era muito mais forte, as crianças eram bagunceiras? Eram, mas havia o respeito ao professor, a direção ,etc. A merenda era de qualidade, não faltava nada as escolas. Quando trocou o governo, professores que se aposentaram não foram repostos, o salário começou a ser achatado, etc... Resultado, tive que voltar para a particular, mas no Segundo Grau (atual Ensino Médio) retornei a educação pública, mas a realidade foi outra bem diferente.

Bem, Brizola retorna ao governo, acreditávamos que seria como antes, mas não foi: Ele cometeu vários erros políticos, mas não o julgo, pois talvez se eu tivesse no lugar dele, eu teria feito a mesma coisa.

Cego por seus ideais, comprou uma Briga com a toda poderosa Rede Globo, representada pela figura do Sr. Roberto Marinho. O que fez com que ela transferisse grande parte de sua produção para São Paulo e, paralelamente a isso, grandes empresas também se transferiram. A pressão midiática contra o governo foi grande, não só na TV, atingiu também os rádios e os jornais escritos.

Fato foi que ele incomodou os poderosos, o que fez com que seus aliados o abandonasse e ele ficou isolado. Seus aliados, que só existem na política fluminense e carioca devido a sua influência: César Maia, Saturnino Braga, O casal Garotinho, Marcelo Alencar, e tantos outros. O incrível é que quando eram aliados eram claramente de esquerda, mas depois... well, acho que agente já sabe !!! Lembro, também, que o repasse de verbas do Governo Federal foi mínimo para o RJ, afinal ele era um dos maiores opositores de sua época..

A industria de boatos foi fundo, dizendo que ele era amigo dos traficantes... mas até hoje nada comprovado realmente.

Bem, preciso abrir uns parágrafos para falar de umas figuras que ganharam projeção no período de democratização de nosso país, que parece ser ignorados por aqueles que falam que os professores “demonizam os alunos”: O traficante

Durante o período de democratização, o trafico de drogas ganhou força, não só nos grandes centros como Rio e São Paulo, mas rapidamente se espalhou pelo território nacional. Não sei precisar quando surge a Falange Vermelha, atual Comando Vermelho, mas lembro da fuga espetacular do traficante Escadinha, onde um helicóptero invadiu na mais perfeita calma adentrou o pátio de um presídio e, simplesmente decolou... O tráfico invadiu as escolas, as crianças das comunidades, incluindo muitos colegas de escola, passaram a ver o traficante como um ídolo, alguém que detinha o poder, alguém a ser seguido. A imprensa em nenhum momento, enaltece a péssima pessoa que era o traficante, mas enaltece seu poder e sua fuga espetacular. O medo entra em cena, o tráfico mostra seu poder político, corrompendo vereadores e deputados. O cidadão fluminense, principalmente o carioca, começa a se sentir acoado. As drogas deixam a comunidade e toma conta das ruas, das boates, dos bares, etc... O tom de rebeldia que antes criticava o governo passa a enaltecer o tráfico, o Rock dar lugar ao Batidão...

Nesse ponto, os detetores da educação impõem a escola assume um papel pela qual ela não estava preparada e, é logo, acaba por fracassar: O de socializadora. A escola simplesmente não tinha como combater o tráfico de drogas. A escola Pública estava e, em muitos casos ainda está, refém. Começa ou acentua o esvaziamento da Escola Pública. Nesse período, a corrupção brasileira vem à tona, ser honesto era sinônimo de ser otário, e muitos brasileiros veem que a melhor saída para o Brasil era o Aeroporto...

O desrespeito ao professor toma outra face: os salários (que segundo alguns, compreendiam 4 Salários Mínimos iniciais ao Professor do Estado) caem vertiginosamente. O aluno começa a ver o professor como um falido, como um estudante que não deu certo. Os idealistas do neoliberalismo começam a nos ver como algozes da educação nacional, como se tivéssemos culpa dos vários fatores que levaram ao fracasso da Educação Pública. Ao invés de abrir mais escolas, lotam as salas, a Escola passa a ser um depósito. A educação se universaliza, mas não prepararam a escola para isso.

Quando voltei a Educação Pública, agora no Segundo Grau, tive um choque: a conservação do prédio escolar era péssima, turmas hiper lotadas, não tive professores de algumas matérias (fui aprovado com plano de estudos), alguns alunos vendiam maconha dentro do colégio, outros chegavam até a transar na quadra, principalmente, no turno da noite. Foi a época dos caras pintadas, os estudantes ainda protestavam.

Com seus ideais de Estado Mínimo, o período governado pelo ex-militante de esquerda, Fernando Henrique Cardoso, desvaloriza a Educação Pública em vários níveis. Os investimentos na escola pública foram mínimos e as leis favoreciam a educação particular, principalmente nos níveis superior e técnico. Quem fez faculdade nessa época se lembra do encolhimento das bolsas de pesquisa e das tentativas de privatização das Universidades Públicas. O efeito cascata é claro: os funcionários públicos em todas as esferas, inclusos aí os professores, ficaram com seus salários congelados. Os salários foram desindexados do Salário Mínimo, aumentando ainda o achatamento salarial, não apenas do professores, mas de toda a população brasileira: Resultado: acentua o esvaziamento de professores nas Escolas Públicas.

Ainda durante a faculdade começa a minha experiência com educação pública, ainda como agente administrativo da PMRJ, mas vou deixar isso para outro dia, quando tiver tempo... pois o texto ficou longo demais e com certeza, cansou vocês...

abraços.

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